Mobilidade elétrica avança nas capitais brasileiras

Com o crescimento da frota e avanço da infraestrutura de recarga, a mobilidade elétrica ganha escala nas capitais brasileiras, contribuindo para a transição energética

mobilidade elétrica está rapidamente se consolidando como um vetor estratégico da transição energética no Brasil, refletindo tanto a evolução do mercado de veículos quanto a crescente necessidade de reduzir emissões no setor de transporte. De acordo com o Balanço Energético Nacional 2025, elaborado pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE) em parceria com o Ministério de Minas e Energia (MME), o número de veículos eletrificados em circulação no país passou de aproximadamente 1,9 mil em 2020 para mais de 215 mil em 2024, um crescimento superior a 100 vezes em cinco anos. Esse movimento elevou o consumo de eletricidade no transporte de 14 GWh para 309 GWh no mesmo período, reflexo direto da adoção desses veículos.

estudo aponta ainda que o aumento de vendas tem sido impulsionado principalmente por veículos leves plug-in, tanto híbridos plug-in (PHEV) quanto elétricos a bateria puros (BEV), que hoje lideram as vendas de eletrificados no Brasil.

Mercado brasileiro

Embora o Brasil ainda esteja em estágio inicial comparado a mercados europeus e asiáticos, o ritmo de adoção nas capitais brasileiras vem ganhando evidência. Dados recentes da Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE) mostram que, pela primeira vez, em 2025, Brasília superou São Paulo em emplacamentos de veículos eletrificados, com 2.413 unidades licenciadas apenas em novembro, contra 2.399 na capital paulista. Outras capitais como Belo Horizonte, Rio de Janeiro e Curitiba também figuram entre as principais emplacadoras de elétricos no país. “Brasília colhe os resultados de uma política clara de incentivo ao carro elétrico que já tem alguns anos, principalmente a isenção do Imposto sobre Propriedade de Veículos Automotores (IPVA)”, declarou Ricardo Bastos, presidente da ABVE.

A participação de mercado dos veículos eletrificados atingiu 9,3% do total de vendas de veículos leves (227.174) em novembro, conforme dados da instituição. Esse percentual indica crescimento em relação ao mesmo mês em 2024, quando os eletrificados representavam 7,1% do mercado, evidenciando sua expansão nos últimos 12 meses.

Incentivos fiscais e políticas locais como a isenção de IPVA e estímulos municipais, por exemplo, podem desempenhar um papel decisivo na aceleração da mobilidade elétrica quando alinhados com a realidade do mercado.

Segundo a ABVE, o ranking de vendas de veículos leves eletrificados por regiões brasileiras em novembro de 2025, foi:

1º – Sudeste: 9.382 (44,2%)

2º – Sul: 4.033 (19,0%)

3º – Centro-Oeste: 3.618 (17,1%)

4º – Nordeste: 3.417 (16%)

5º – Norte: 777 (3,7%)

Infraestrutura de recarga nas capitais

A expansão da infraestrutura de carregamento é u m dos pilares do desenvolvimento da mobilidade elétrica, e, nesse aspecto, o Brasil tem avançado de forma significativa, ainda que desigual.

Até setembro (2025), existiam mais de 16.800 pontos de recarga, distribuídos em mais de um mil municípios brasileiros (a maioria deles na região Sudeste). Porém, nem todos eles são postos de recarga rápida ou ultrarrápida, mas sim instalações nas quais o veículo estaciona e é recarregado enquanto não está em uso.

A infraestrutura ainda é fator determinante na hora da decisão por um carro elétrico ou híbrido. Segundo pesquisa do Webmotors, pelo menos 54% dos brasileiros apontam a falta de pontos de carregamento como barreira para adquirir um veículo híbrido ou elétrico.

A mobilidade elétrica, em pleno crescimento no Brasil, é cada vez mais apoiada por políticas regulatórias específicas que fomentam a transição energética. Programas como o Mover (Mobilidade Verde) oferecem incentivos e subsídios voltados à adoção de tecnologias de mobilidade elétrica e infraestrutura de recarga. Iniciativas semelhantes, combinadas com esforços de governos estaduais e municipais, contribuem para reduzir barreiras de entrada e estimular investimentos privados.

Desafios das capitais

Apesar do avanço consistente da mobilidade elétrica em capitais brasileiras, a consolidação desse modelo em escala urbana ainda enfrenta desafios estruturais que exigem coordenação entre poder público, setor elétrico, indústria automotiva e planejamento urbano.

Um dos principais entraves é a distribuição desigual da infraestrutura de recarga. Hoje, os eletropostos estão fortemente concentrados em grandes capitais e em áreas de maior renda, como regiões centrais e eixos corporativos. Esse cenário cria “ilhas de eletrificação”, dificultando a adoção em bairros periféricos e em cidades com menor densidade econômica.

A ausência de uma malha de recarga mais capilarizada impacta diretamente a confiança do consumidor e limita o uso do veículo de passageiros elétrico como solução cotidiana de mobilidade urbana. Para gestores públicos e operadores do setor elétrico, o desafio está em equilibrar viabilidade econômica, planejamento urbano e acesso equitativo à infraestrutura, evitando que a mobilidade elétrica se torne um privilégio restrito a determinadas regiões.

Apesar desses desafios, várias capitais brasileiras se destacam como exemplos de boas práticas em mobilidade elétrica.

No caso do transporte pesado, São Paulo mantém sua posição de referência histórica em mobilidade urbana, com modernização do transporte coletivo e incorporação progressiva de ônibus elétricos à frota municipal. A iniciativa contribui para a redução de emissões locais, melhora da qualidade do ar e desenvolvimento de escala para a eletromobilidade no transporte público.

Brasília, por sua vez, vem se destacando pelo crescimento acelerado nos emplacamentos de veículos eletrificados, resultado de políticas de incentivo fiscal e de um ambiente regulatório mais favorável. O desempenho da capital federal demonstra como estímulos econômicos bem direcionados podem acelerar a adoção da mobilidade elétrica em centros urbanos.

Já Curitiba e Belo Horizonte apresentam um avanço gradual e consistente, combinando expansão da infraestrutura de recarga, planejamento urbano e iniciativas voltadas à mobilidade sustentável. Embora em ritmo mais moderado, essas capitais mostram que a eletrificação pode evoluir de forma estruturada quando integrada às estratégias locais de transporte e energia.

Integração com a mobilidade urbana sustentável

Embora a mobilidade elétrica seja um componente muito importante, ela não é a única solução para os desafios urbanos. Para gerar benefícios ambientais e sociais efetivos, ela precisa estar integrada a uma estratégia mais ampla de mobilidade urbana sustentável. Isso inclui:

  • transporte coletivo de baixa emissão;
  • integração com ciclovias e modais ativos;
  • sistemas de mobilidade compartilhada;
  • planejamento urbano orientado à redução de deslocamentos longos.

Segundo o Programa das Nações Unidas para os Assentamentos Humanos (ONU-Habitat), a eletromobilidade pode contribuir simultaneamente para uma mobilidade urbana sustentável, “ao aumentar a eficiência energética dos veículos e apoiar a mudança para o transporte público e a mobilidade ativa, desde que as soluções sejam integradas aos sistemas de transporte existentes”, declarou a organização, no documento “A integração é fundamental: o papel da mobilidade elétrica para cidades sustentáveis ​​e de baixo carbono”.