NAIRO ALMÉRI
A eventual venda ao Governo da China de 20,33% (o controle) do capital da Rumo S.A. ultrapassa o limite de simples negócio de mercado. Consolidaria outra raia de privilégios que os Governos do PT, desde 2003, direcionam ao regime de Pequim.
A holding Cosan S.A. está ofertando parte do controle da sua concessionária ferroviária.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT-SP) cultiva alinhamento ideológico à China em seus três governos: 2003-2010 e 2023-2026. O petista sustenta políticas permanentes de estímulo às exportações commodities agrícolas e minerais e bens básicos intermediários o país asiático. Abriu mão, portanto, ao incentivo à manufatura local e agregar maior valor às exportações.
Nesse ambiente, incluindo o Governo Dilma (PT-RS), de 2011 a meados de 2015, o PT escancarou aos chineses áreas e ativos estratégicos de infraestrutura (energia, petróleo, agronegócio). Foi gentil também na expansão de negócioschineses sobre extensas faixas de terras. LEIA: “Amazônia Legal (da China)“.
E chega aos tempos atuais com as facilidades para os carros elétricos da BYD liderarem aqui as vendas no segmento. De tão acintosa, a proteção petista gerou protesto da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea). Por fora, os aumentos constantes nos preços dos combustíveis e no percentual de adição de álcool anidro à gasolina pressionam pela procura por carros elétricos.
Na última atualização (22/05) à Bolsa de Valores B3, a Cosan detinha 30,34% das ações ordinárias do capital social da Rumo. Concessionária das Malhas Sul e Oeste, a empresa lidera a logística ferroviária de cargas na América do Sul e no deslocamento de grãos nesse modal.
Cofco sem concorrente na Rumo
A trading estatal China Oil and Foodstuffs Corporation (Cofco) representa a China na corrida pela Rumo, da qual é cliente no transporte de grãos no Brasil. A chinesa é a segunda maior trading de alimentos do mundo, depois da Cargill, dos Estados Unidos. Veja adiante sobre as vantagens que Cofco leva na negociação.
No páreo, em tese, estariam outros grandes grupos com atuação ou não no agro. Entre estes surgiram nomes da Bunge, Impasa e Ultra (Ultrapar).
O que está em jogo com a Rumo
A Rumo faz a logística para o Porto de Santos da soja adquirida pela trading de Pequim, principalmente do Centro-Oeste. Analistas do setor temem, então, o risco calculado de, por tabela, a logística da economia interna ficar a reboque do capital chinês.
Cofco triplica posição em Santos
O sistema portuário de Santos é o maior da América do Sul. A Cofco opera nele terminais para armazenagem de grãos cuja capacidade será triplicada para 14 milhões de toneladas anuais. Em 2024, de acordo com a Câmara de Comércio de Desenvolvimento Internacional Brasil-China (CCDIBC), a trading foi a maior exportadora de produtos agrícolas brasileiros de soja, milho e açúcar do Brasil: 17 milhões t.
Rumo entrega mais de 50% da soja embarcada
As cargas de grãos dos clientes da Rumo respondem por mais de 50% dos embarques em Santos. Em resumo: com a Rumo em seu portfólio, a China controlaria a logística relevantedo maior exportador mundial de soja, o Brasil.
Trump agiu no Canal do Panamá
Com a Rumo sob comando eventual da Cofco, parte significativa do comércio externo do Brasil repetirá situação análoga à da operação do Canal do Panamá até pouco tempo. A intervenção do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, evitou que a China assumisse o controle parcial do tráfego mundial de cargas que usa o canal. Além disso, é estratégico para Washington no deslocamento de tropas e equipamentos de guerra em rotas do Atlântico e Pacífico e Caribe.
Crise na Raízen, em recuperação
A Cosan, líder na produção de açúcar e etanol, é comandada pelo empresário Rubens Ometto (Grupo Ometto). No momento, administra a reestruturação financeira do conglomerado. A Raízen, por exemplo, requereu recuperação extrajudicial em março. Esta lidera o mercado de distribuição e venda de etanol e atua no varejo de combustíveis em parceria da Cosan com a Shell Brasil (50%).
Dívidas de R$ 65 bilhões
O pedido de recuperação foi protocolado na 3a Vara de Falências e Recuperações Judiciais da Comarca de São Paulo (TJSP). A Raízen busca fôlego para ajustar a liquidação de dívidas de R$ 64,7 bilhões. Estão no pedido a Raízen (holding), Raízen Energia, Raízen Fuels Finance, Raízen Trading, Raízen North America, Raízen Caarapó Açúcar e Álcool, Raízen Centro-Sul Paulista, Raízen Centro-Sul e Blueway Trading Importação e Exportação.
Prazo termina na quinta; capitalização de 45%
O Plano de Recuperação, informou a Raízen, em 12 de junho, recebeu aval de 80,15% dos credores dos débitos passível de recuperação. A meta do plano passa pela capitalização de 45% (entrega de ações do capital) do valor. O restante será renegociado (dívida nova). Na quinta (16/07) se encerra o prazo de 30 dias para impugnações dos credores.
Buraco chega nos R$ 75 bilhões
O fundo do poço da Raízen, todavia, chega nos R$ 75,3 bilhões. Isso foi destacado pelos analistas do portal Expert, da XP, no detalhamento de como será a operação, fatiamento dos débitos e capitalização dos acionistas.
R$ 53 bilhões em ativos
A Rumo faturou R$ 3,282 bilhões no 1T26, ou seja, 10,6% acima do 1T25. O lucro líquido, de R$ 97,7 milhões, reverteu o prejuízo do mesmo período de 2025, de R$ 97,1 milhões. Na rubrica do ativo total, a companhia acumulava R$ 53,7 bilhões. O patrimônio líquido era de R$ 14,1 bilhões, mesmo patamar de 31 de dezembro.
Executivo admite venda da Raízen e o fim da Cosan
Em meados de maio, o diretor-presidente da Cosan, Marcelo Martins, colocou mais poeira no cenário do Grupo Ometto. Admitiu que a holding poderá também vender o controle (50%) na Raízen. Mas foi além: no curto-médio prazo, haveria dissolução da própria holding.
Rubens Ometto nega: holding não acabará
Entretanto, tudo foi negado por Rubens Ometto, o fundador e presidente do Conselho de Administração da Cosan.
No vermelho R$ 1,5 bilhão
No 1T26, a Cosan registrou receita de R$ 9 bilhões, portanto, 6,6% inferior ao 1T25. O resultado do balanço foi negativo R$ 1,583 bilhão, mas ligeiramente inferior ao prejuízo do mesmo período de 2025 (R$ 1,787 bilhão). A dívida líquida (deduzido valor em caixa e previsão de receitas) estava em R$ 11,5 bilhões.
Perda de 4,3% no valor na B3
Enquanto o Governo Lula azeita os trilhos da Rumo para o Governo da China, a companhia perde valor de mercado na Bolsa B3. De 29 de maio para 30 de junho, caiu de US$ 5,043 bilhões para US$ 4,822 bilhões – de R$ 25,503 bilhões para R$ 24,964 bilhões.
Renovação das concessões da Rumo
Esse momento da Rumo coincide com a preparação, pelo Governo, do edital das novas concessões ferroviárias das Malhas Sul e Oeste. A Sul faz a ligação dos mercados de São Paulo até a fronteira Brasil-Argentina, em Uruguaiana (RS). A Oeste, liga Corumbá (MS) a Mairinque (SP).
Investimentos da Cofco em Mato Grosso
A Cofco foi criada para importar alimentos destinados ao consumo interno. É a maior processadora de alimentos e do agro chinês. Neste ano, anunciou investimentos de US$ 370 milhões (R$ 2 bilhões) no complexo Rondonópolis (MT). O projeto é para duplicar a capacidade de esmagamento de soja, para 10 mil toneladas/dia.
Rumo colocará mais 566 km de ferrovia
Não por mera coincidência, os trilhos da Rumo chegam na Cofco. Além disso, também em MT, a concessionária toca projeto de 743 km de ferrovia. O custo é estimado em R$ 15 bilhões. A chinesa será diretamente beneficiada.
Cofco vai atravessar a livre concorrência; Cade
O analista de logística portuária Alfredo Rodrigues (engenheiro portuário), em artigo para o portal BE News, aponta riscos que previsíveis com eventual controle da Rumo pela Cofco. Isso somado à operação no Porto de Santos. A chinesa teria vantagens no uso serviços públicos concessionados em detrimento das concorrentes.
Alerta da Agência Moody’s
Uma das três maiores agências mundiais de classificação de riscos, a Moody’s Ratings aponta que o Brasil criou uma “armadilha” nessa dependência elástica com a China. Veja mais em matéria do portal Seu Dinheiro.
Nairo Alméri, para o Além do Fato
